Newsletter · 15 de julho de 2026
A alma não cabe na produtividade
Quando foi que até o descanso virou tarefa? O que existe na sua vida que não produz nada — e ainda assim é essencial?

Recentemente me aconteceu algo. Eu tinha alguns minutos livres antes de começar um atendimento. Subi correndo as escadas para preparar um chá, desci correndo de volta e, no meio do caminho, caí.
Não foi nada grave. Mas lembro de ter pensado — depois — que talvez aqueles poucos minutos pudessem ter sido vividos de outro jeito. Eu poderia ter ido até o quintal, tomado um pouco de sol, observado meu pé de laranja-lima, respirado.
Parece uma história banal, mas ela ficou comigo. Talvez porque revela algo muito característico do nosso tempo: a dificuldade de deixar existir um espaço que não esteja a serviço de alguma coisa. Um espaço que não precise gerar resultado, que não pressuponha desempenho e menos ainda eficiência.
O que existe na sua vida que não produz nada?
Foi a partir dessa inquietação que nasceu o episódio mais recente do Mercúrio. Ao longo da conversa, eu e a Debora exploramos uma pergunta que parece simples, mas que vai ficando mais complexa quanto mais tempo permanecemos com ela:
O que existe na sua vida que não produz nada — e ainda assim é essencial?
Falamos sobre o descanso que virou recuperação para continuar produzindo, sobre hobbies que deixaram de ser espaços de encontro e passaram a ser metas, sobre a maternidade, que tantas vezes é tratada como uma fase “não produtiva”, apesar de sustentar aquilo que há de mais fundamental na vida humana.
Falamos também sobre pessoas que chegam aos nossos atendimentos dizendo algo como:
“Minha vida está toda organizada. Eu gosto do meu trabalho. Amo minha família. Mas alguma coisa continua me inquietando.”
E sobre a rapidez com que tentamos responder a essa inquietação fazendo mais alguma coisa. Mais um curso, mais uma atividade, mais um projeto, mais um compromisso…
É curioso como algumas perguntas mal têm tempo de aparecer e nós já estamos ocupados tentando resolvê-las. Talvez uma das perdas silenciosas da nossa época seja justamente a capacidade de permanecer um pouco mais tempo com as perguntas, de escutar o que elas têm a dizer antes de tentar resolvê-las.
No episódio #56 do Podcast Mercúrio, conversamos sobre ritmo e rotina, sobre tempo interno e tempo externo, sobre contemplação, arte, biografia e alma. E talvez por isso esse tenha sido um daqueles episódios que não terminam quando a gravação acaba…
Ouça e assista agora: no Spotify ou no YouTube.
Depois de gravar esse episódio, fiquei pensando em algo que talvez eu ainda esteja aprendendo:
Nem todo espaço vazio precisa ser preenchido; alguns talvez precisem apenas ser habitados.
Quando você ouvir o episódio, me conte depois o que ficou reverberando por aí?
Com carinho, Carla Latini Psicóloga, Aconselhadora Biográfica e co-fundadora do Mercúrio Antroposofia
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